Entrevista: Bluecomotive Talks with… Juliana Linhares

Entrevista: Bluecomotive Talks with… Juliana Linhares

Plantar no outro uma nova ideia sobre o Nordeste — acrescentando novas leituras a esse imenso e diverso território cultural brasileiro — foi uma das premissas que deram origem a “Nordeste Ficção”, o álbum de estreia de Juliana Linhares. Atriz, cantora e compositora, a multifacetada artista brasileira suspende o olhar e o fôlego de quem a vê em palco. Saímos transformados — como era sua ambição — num processo em que também ela se reinventou, descartando algumas verdades e descobrindo outras novas.

 

🎧 OUVIR “NORDESTE FICÇÃO”

 

Há muito tempo que manifestava o desejo de lançar um álbum em nome próprio. Como tem sido a experiência de se entregar por completo — sem concessões nem limites criativos — a este projeto tão pessoal e que parece não ter prazo de validade? 

Um projeto assim tão pessoal, onde falamos muito em nosso nome, favorece um mergulho em nós mesmos. Este disco, este projeto, permitiu-me conhecer mais as minhas angústias, as minhas facilidades e dificuldades, as coisas que eu sabia e que não sabia, o que eu queria aprender a partir desta experiência, o que eu conseguia compartilhar. Então, tem sido muito rico para mim, depois de mais de quatro anos, poder ainda estar trabalhando este álbum, que para mim se coloca cada vez mais vivo e mais em transformação. Tanto um poder de transformação, de todo o mundo que convive, participa e conhece, quanto para mim mesma. Acho que a minha voz se transformou, o meu discurso se transformou, o que eu quero cantar se transformou. Algumas verdades que eu tinha também se desfizeram e outras coisas que eu não sabia viraram novidade no meu coração.

 

Como descreveria a essência de “Nordeste Ficção”? Que narrativas ou sentimentos procurou transmitir através destas canções?

Na essência, o que eu queria realmente era contribuir, colocar no livro, nos vários livros do Nordeste que a gente tem, nas várias histórias, mais uma página. Mais uma contribuição artística para uma visão, para mais uma visão possível, do Nordeste. A gente sabe que muitas vezes as pessoas têm visões reduzidas e o “Nordeste Ficção” vem com o desejo de ampliar essa visão, junto com outros artistas e trabalhos que estão sendo feitos no Nordeste. O desejo do projeto, o que está nas entrelinhas, é ampliar o Nordeste, na compreensão de que ele é múltiplo, poderoso. Ele tem muitos temas, porque o Nordeste é diverso: a gente fala de amor, de sexualidade, de retirância [migração nordestina]. Fala de muitas coisas dentro das entrelinhas deste tema que é o “Nordeste Ficção”. 

 

O disco inclui duas parcerias marcantes com Chico César e Zeca Baleiro. Como nasceram estas colaborações e o que significam para si?

Para mim, as parcerias com o Chico César e o Zeca Baleiro são muito importantes porque são dois artistas de uma geração um pouco antes da minha que fizeram essa travessia muito interessante, na cabeça dos brasileiros, de mostrar o Nordeste em outros lugares. São dois compositores e cantores, dois multiartistas, do Nordeste que fizeram uma travessia para o Sudeste e plantaram um Nordeste diferente, através das suas composições, na cabeça das pessoas. Isso, para mim, foi uma grande inspiração para o álbum. E poder tê-los aos dois como parceiros de composição foi uma surpresa e um presente que até hoje, às vezes, ainda nem acredito. Ter feito as canções com eles, ensinou-me sobre composição e sobre esse trabalho que é a travessia toda que a gente faz o tempo inteiro na cabeça das pessoas, no pensamento da gente no outro.

 

No verão regressou a Portugal para dois concertos, no FESTA OVAR e no MIMO Amarante. Como foi essa experiência?

Voltar a Portugal é sempre para mim uma alegria. Gosto muito de levar a música para fora, ainda mais para um país que tem esse diálogo com a nossa língua, em que podemos também desconstruir muitos ideais e imaginários da nossa relação Brasil-Portugal dentro dessa vivência real: quando vamos, quando vemos, quando cantamos, quando colocamos mesmo a música em diálogo, muita coisa dentro de nós acontece. Isso é muito poderoso.

 

 

 

 

 



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