11 Fev Entrevista: Bluecomotive Talks with… Cara de Espelho
Com o álbum homónimo de estreia, Cara de Espelho acumulou prémios, elogios, devoção e pó na estrada. Já ali se adivinhava que, nas canções, aquilo que nos une é maior do que aquilo que nos separa: um território comum de inquietações sobre o mundo que nos cerca. Agora, ao segundo disco, Carlos Guerreiro (vários instrumentos), Luís J Martins (guitarra), Maria Antónia Mendes (voz), Nuno Prata (baixo), Pedro da Silva Martins (guitarra) e Sérgio Nascimento (bateria) apuram esse olhar crítico e mordaz, tão brilhante e contundente. No novo álbum “B”, até podem ter mudado os tempos, mas não mudou a vontade de apontar o dedo ao que neste país se deixa cair em descrédito. Eles fazem da sua a nossa voz. Escuta e replica.
Quando Cara de Espelho surgiu, este “supergrupo” como foi de imediato designado, vindo das cinzas de outros projetos de renome, terá havido a dúvida de se tratar de um projeto especial, pontual no tempo, ou se estávamos a conhecer uma banda para ficar. Agora, dois anos depois, já com dois álbuns editados, 19 meses de estrada na bagagem e uma nova digressão anunciada, essa dúvida desfez-se de vez, certo?
Sérgio Nascimento — Quando surgiu a ideia de fazermos uma coisa em conjunto foi um bocadinho uma espécie de coleção de pessoas. Gostávamos todos do trabalho uns dos outros e das pessoas também. E depois a coisa foi-se concretizando e o discurso começou a ganhar muita forma. Ficou um comboio assim um bocado imparável. Agora sentimos que somos uma banda e queremos fazer muita coisa para a frente, enquanto estivermos aqui cheios de saúde.
As tuas letras são sempre descritas como “um olhar atento” da sociedade, do que vai mal no mundo em geral e em Portugal em particular. As letras combinam assuntos de notícias, discursos políticos, reações das pessoas na rua e nas redes sociais. Esse olhar atento é o teu olhar e o da restante banda, mas é também o das pessoas, ou assim o procura ser? Sentes esse reflexo na reação do público às canções?
Pedro da Silva Martins — Sim, de certa forma existe essa relação do público com as canções, porque se identifica com as letras. Porque também tento que as letras tenham uma leitura por parte do público que também seja abrangente. Acho que há diferentes camadas de interpretação das canções. Essa é uma daquelas características que Cara de Espelho tem, que é espelhar um pouco Portugal, este país e o mundo até. E penso que as pessoas se sentem refletidas e, portanto, há essa ligação às letras também importante.
Quando recebes as letras escritas pelo Pedro da Silva Martins, para encontrar a tua voz, como que inventas uma personagem para cada canção. Obviamente, essa espécie de teatralidade é depois ampliada em palco, ao vivo. Mas a questão é: Quanto de ti há em cada uma dessas personagens?
Maria Antónia Mendes — Difícil de responder, é uma pergunta pertinente. Tal como um ator ou uma atriz, o meu corpo e a minha voz estão ali. Mas não necessariamente está uma parte de mim real e verdadeira. Se calhar, em algumas músicas, sim, também envolve alguma experiência de vida, algum frame de uma experiência que eu tenha tido, e que me inspira para dar corpo àquelas palavras. Mas não necessariamente: consigo também inspirar-me na vida dos outros e tentar representá-la ou dar voz ao que vai acontecendo na vida das outras pessoas.
Vocês, músicos, conhecem o estigma do segundo álbum: a pressão de, tendo tido um disco de estreia altamente elogiado, ter de corresponder às expectativas da crítica e do público. No novo disco “B”, como geriram o equilíbrio entre dar continuidade à sonoridade e estética visual do primeiro álbum e acrescentar camadas à vossa identidade musical?
Luís J Martins — Foi um crescimento natural da banda e acho que se sente a experiência de estrada, a experiência de tocarmos mais juntos. Neste momento, somos mais banda do que no início. O primeiro disco surge de canções trabalhadas à distância, em trocas de ficheiros, também porque começámos a trabalhar na pandemia. E o “B” nasce dessa energia de estrada. Por todo o processo ter sido vivido presencialmente, com todos juntos, é um disco que também passa essa energia de banda. Essa boa onda de banda é uma das identidades do disco.
Existe a expressão “homem dos 7 instrumentos”, mas no novo disco “B” tocas uma dúzia de instrumentos, muitos construídos por ti. Esse processo de invenção e construção faz parte do prazer de integrar os Cara de Espelho? Como é que surgem as ideias para, por exemplo, fazer de uma garrafa ou uma panela um instrumento?
Carlos Guerreiro — A música é uma coisa muito vasta, muito ampla, e acho que todos os músicos são diferentes uns dos outros pela forma como lidam com a música. Desde sempre me senti mais interessado pelo som, pela produção do som, do que propriamente em ser um virtuoso do instrumento. E, por isso, estes caminhos vão dar a outros caminhos que a gente não previu: são as próprias coisas que acabam por gerar outras coisas. Daí eu ter um bocado este lado de músico louco. Realmente, eu olho para os meus instrumentos e aquilo não está escrito em lado nenhum. Mas eu não tenho culpa, foi por ali que eles me levaram.

A estreia de “B” ao vivo acontece já a 20 de fevereiro, no Cineteatro Louletano, numa digressão que depois passará por Lisboa (Culturgest), Famalicão (Casa das Artes), Aveiro (Teatro Aveirense) e Castelo Branco (Cine-Teatro Avenida), entre outras salas a anunciar em breve. Entusiasmados por revelar ao vivo as novas canções?
Nuno Prata — Sim, estamos todos entusiasmados para começar a fazer os primeiros concertos. É um trabalho diferente do de estúdio: é uma readaptação das canções ao vivo. É mais uma pequena parte do nosso trabalho criativo que nos entusiasma: cozer as canções entre elas e com as canções do disco antigo para termos um alinhamento que faça sentido e que tenha uma narrativa. Estamos entusiasmados porque é sempre uma fase importante e interessante do trabalho, precisamente porque continua a ser uma parte criativa sobre o trabalho que já fizemos no disco.
“B” NA ESTRADA:

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